domingo, 24 de março de 2013

RECEITA PARA VENDER SAÚDE NAS PRATELEIRAS DO COMÉRCIO NEOLIBERAL


O sucesso na venda de uma mercadoria começa antes da sua comercialização direta nos supermercados da economia neoliberal. Portanto, de inicio, contrate agências de marketing cujo nome esteja associado a signos mesmerizantes como corações intensamente vermelhos e pulsantes, muita prata e dourado nas avenidas, e crianças, pais e avós em harmonia, projetados em imagens conjugadas a jingles e fragmentos de canções populares. Prometa, esta ficção higienizada como futuro, ainda que tudo isso já esteja associado a seus mais perversos concorrentes. Sua imagem, de trabalhador, empresário, ou intelectual, estará protegida no imaginário popular como o infatigável progressista e defensor dos direitos dos humildes e desvalidos.

Agências de marketing não tem ideologia, tem interesses mercadológicos, ao contrário de você. Você não vende mercadorias, você vende satisfação e ilusões.

E nunca esqueça que o concorrente de hoje será o amigo de amanhã que, nas câmaras e assembleias, definirá a tabela de variação de preços, a margem de lucro, e a indicação de membros na cozinha do poder. O que importa é que você tenha mais tempo para divulgar sua imagem doce e eficaz na mídia digital, enquanto as bases, os quadros, os cabos, pouco importando como sejam denominados aqueles que mais parecem mascates, vendem esta ilusão por você nas periferias.

Antecipado o miraculoso produto, higienizado, saneado, perfeito, é hora de compor a equipe da cozinha virtual. Nomeie para chef um economista, ele saberá como poupar gastos excessivos, falar uma linguagem cientifica que convence pelo aturdimento e pelo mesmo motivo de sua eleição, a estultícia do eleitorado, vítima das mesmas sabotagens e armadilhas preparadas para a educação modeladora de consumidores, inclusive ou principalmente, do que você entende por saúde.

Estabeleça princípios ou passos para a receita não azedar: redução de gastos implica em priorizar as tecnologias leves, próprias da atenção primária, e repassar para os representantes do capital privado tudo que for considerado de complexidade terciária e de alto custo. Não se esqueça de repetir estes princípios até que sejam aceitos como a cobertura doce do bolo, solado, por baixo. Afinal, você sabe que não importa o nível de atenção, os gastos são vultosos e se equiparam. Só você sabe que o que realmente importa é a transfusão de sangue financeiro para o capital privado, seus atuais aliados. Os corações pulsam vermelhos, na mesma sintonia, como na propaganda eleitoral.

A receita está iniciando. Agora nomeie os auxiliares do chef, de preferência teóricos, vaidosos, ambiciosos, alguns idealistas, em geral mal remunerados na academia ou nos serviços, sem ou com pouca experiência prática, e técnicos, vaidosos, ambiciosos, e autoritários, misture-os e aguarde que fermente, e borbulhem conflitos. Não se preocupe, você conseguirá atingir um bom resultado: muitas políticas, e ações para serem cumpridas. Quanto mais confusas, descontínuas e fragmentárias, melhor. Enquanto estão ocupados em fazer valer ou cumprir, cada um, o único ingrediente que conhecem, esquecem o principal que você guarda para financiar as receitas nobres, para degustar o caviar e o Moet Chandon com seus novos amigos, os únicos, eficientes e salvadores da incompetência da gestão pública na saúde.

Dê então o segundo passo na receita, desqualifique os gestores da saúde pública, atribuindo-lhes a sua própria incompetência e amoralidade. Não importa, a maioria crê que mesmo que você entregue a gestão administrativa e financeira para grupos privados, eles serão chamados a permanecer no poder. Voce já aprendeu que no mundo unidirecionado pelo capitalismo neoliberal as pessoas se adaptam a qualquer situação, pois não há ideologia. Você nem precisou pedir para que eles afirmassem isso, seus auxiliares compreenderam que para sobreviver no poder seria necessário repetir que a ideologia não existe. Nem mesmo a razão existe mais, o poder da técnica, o produtivismo, o imediatismo, o utilitarismo a torna desnecessária. Alguns idealistas abandonarão o iate que você construiu para se divertir. Tolos, a fila de oportunistas e idealistas é superior aquela do SUS, que você tanto usou para desqualificar em épocas passadas os amigos de hoje.

E haja com sutileza para que a massa fique macia (ou mansa) e não azede, não reaja contra você. Para entregar os hospitais universitários para os gananciosos que estão sempre ao seu redor disputando fatias, faça com que a própria comunidade acadêmica tome a decisão por você. Assim, se mais adiante o plano não der certo, você não comprometerá seus planos de perpetuação no poder e de proteção dos direitos dos amigos de caviar e champanhe. A comunidade universitária está feliz com seu plano de expansão de vagas, ainda que de maneira degradada. Voce criou muitas vagas docentes, criou cotas, e a maioria, jovens ou antigos, que contribuiu para sua eleição, acreditou em você, está paralisada, a meio caminho, entre o ressentimento e a falta de opção partidária-ideológica. Lembre-se, ideologia não mais existe. E deixe que a própria classe média divulgue que os partidos menores, éticos, sua principal base de crescimento pessoal e partidário, são revolucionários, somente pelas armas, e não por projetos reais, democráticos e soberanos de construção do país.

Para que a receita não demore, elimine os processos licitatórios de compras de medicamentos, equipamentos, serviços e produtos, em geral. Denúncias futuras de corrupção servirão para a correção exemplar e divulgação da face ética de sua autoridade. Além do mais, você poderá afirmar que foi a incompetente e subserviente comunidade universitária que decidiu que a gestão financeira dos hospitais universitários fosse entregue à ganância dos grupos privados.

Como dono do restaurante, você é um gênio. Falta agora, contratar quem vai servir as fatias do bolo solado e azedo com saborosa cobertura de chocolate. Voce precisa de maitres, garçons e garçonetes, cumins, toda a equipe que distribui seus produtos, e que não agregue custos. Primeiro, lembre-se que apesar da violência, a população cresce a olhos vistos, você tem um exercito pronto a lhe servir e substituir os ineficientes. Segundo, lembre-se de projetar a sua ineficiência e a de seus atuais amigos, responsáveis pela rapinagem do tesouro público, em todos os níveis hierárquicos criando uma rede de desqualificação do caráter do trabalhador público. Divulgue que são preguiçosos, e de moral duvidosa. Depois, contrate com vínculo precário, sem garantias trabalhistas, você está acima da constituição. O resto é ideologia, não conta.

E conceda franquias da sua cozinha para seus amigos políticos e empresários para a formação dos profissionais que reduzirão os impactos dos efeitos tóxicos das fatias do seu bolo azedo. Más, não se preocupe com a qualidade técnica, pois o povo ainda lhe agradecerá pela fatia e pela presença do médico em sua casa, a cereja do bolo, não importando se esta será ou não mais um agente tóxico em suas vidas.

Crie um exército de reserva de médicos, depois reduza salários, garantias, e use-os para sua promoção na mídia, quando esta denunciar a corrupção e a gestão ineficiente de seus amigos políticos e empresários. Preencha os vazios sanitários, com este exército, sem consultar ou respeitar a opinião das entidades de classe, defensora dos direitos da categoria, e da formação médica com qualidade.

Aproveite o momento de lua de mel das associações de defesa dos interesses médicos e de formação com suas vaidades e disputas internas, com a razão técnica, com o gozo tecnoburocrático, teórico acadêmico, e ponha o produto no mercado, envolto em papel prateado decorado com corações vermelhos.

E não se esqueça de que todo discurso contrário ao seu é ideológico, ultrapassado, portanto não é racional, e não serve para você e o sistema. Nenhuma outra receita serve, pois o que interessa para você é que saúde é ausência de doença, e presença de médicos.

Bom apetite, companheiros!

 

 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CARTA AO FÓRUM DE DIRETORES DE ESCOLAS MÉDICAS FEDERAIS- AINDA SOBRE O ENSINO E A EBSERH

Caros colegas,
Não poderei estar presente a este encontro de consolidação dos princípios fundamentais do Forum de Diretores de Escolas Federais de Medicina por motivos próprios à Unidade Acadêmica a qual administro neste momento. Ao tempo em que parabenizo o grupo pela reunião e desejo bom proveito das horas de trabalho conjunto, gostaria de contribuir mesmo que à distância com o grupo de trabalho sobre a EBSERH nos hospitais universitários com uma análise do processo de implantação, consequências, e propostas para a defesa do ensino nos HUs.
Ressalto: que a portaria que cria a empresa, assinada pela presidente, do 2º ao 17º artigo, fere a constituição federal, e por isso mesmo, existe protocolada no supremo tribunal federal uma ação direta de inconstitucionalidade aguardando parecer inicial do ministro Toffoli; não há tempo definido para julgamento e parecer, dependendo do jogo político de bastidores das forças opostas interessadas na questão;
que embora os salários sejam melhores que para o exercício da docência, o trabalho será precarizado na forma de contratação com vínculo CLT, cuja única garantia é a da instabilidade e de possibilidade de assédio, em função da exigência produtivista e dos onipresentes mecanismos de controle, já denunciada em outras instituições públicas que passaram pelo mesmo processo (correios, BB, etc);
que a desculpa desqualificadora do trabalhador público tem recaído principalmente e exageradamente sobre os gestores dos hospitais universitários, que de maneira estranha tem concordado com esta desqualificação, e mais estranho ainda é que serão convidados a permanecer nos mesmos cargos de direção, agora com mais 17.000,00 reais de bonificação para manter esta atitude esquizoide; se a qualidade do serviço público é questionável em alguns setores, isso se deve à herança da ditadura de favorecimento clientelista de familiares, amigos e cabos eleitorais com admissão sem concurso, prática ainda vigente no país e que retorna agora com esta cara de modernidade na gestão administrativa;
que a qualidade do ensino não será garantida pela empresa e sim pela defesa organizada dos docentes em suas unidades bem como por suas instituições sindicais e outras como o FORDEM.  A ameaça ao ensino nos HUs ficou explícita em Maceió, na fala de dois convidados para defender a EBSERH, a reitora da UFMT e o secretário da ANDIFES, que afirmaram que a formação médica não depende do uso dos Hospitais Universitários, sendo suficiente a formação parcial para a atenção primária na rede SUS;
que a aprovação nos diferentes estados tem ocorrido de forma antidemocrática, truculenta, e interesseira, como ocorreu em Maceió e Natal, e que a desculpa de prazo de 31/12/2012 para a demissão dos funcionários que ocorreria no dia seguinte inviabilizando a assistência à população carente foi uma falácia, o que compromete a confiança nos atuais diretores dos HU que defendiam a empresa (ou seus novos cargos e bonificações) e gestores da empresa e reitores;
que a implantação da empresa tem ocorrido sem consulta aos diretores das unidades acadêmicas da saúde, inclusive da medicina, (ou é uma realidade de Maceió?) de modo sorrateiro.
Portanto, sugiro que a direção do FORDEM junto às demais instituições como a ABEM, Associações de docentes locais, busquem a negociação de:
contratos com a participação direta das unidades acadêmicas da saúde, garantindo a assistência 100% pública e gratuita à população em harmonia com a constituição e os princípios do SUS, e o ensino público sem restrições, a pesquisa vinculada aos interesses universitários;
cargos de chefia de serviços exclusivos aos docentes, garantindo a formação de experiência administrativa, a defesa do ensino e melhora nos vencimentos ( bonificação de 4.000,00 reais);
garantias para as direções das unidades de medicina fazerem parte do conselho gestor ou auditor do HU, se for possível do conselho local da EBSERH
Como última preocupação devemos considerar a criação de princípios de orientação para a eleição de reitores e diretores com perfil mais democrático e comprometidos com a defesa do ensino médico com a qualidade necessária para garantir assistência adequada em todos  os níveis de atenção.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

SOBRE A QUALIDADE DOS EGRESSOS DA REFORMA CURRICULAR


Muito se tem falado ultimamente dos resultados obtidos pelos egressos da ultima turma de formandos da FAMED/UFAL, em especial de alguns alunos que foram aprovados para dar continuidade à formação especializada em centros de excelência de São Paulo, em áreas de estudos consideradas também excepcionais. Todos classificados em primeiro ou segundo lugar para especializar-se em cardiologia, neurologia clinica, neurocirurgia, neuroimagem, oncocirurgia no Hospital Dante Pazanezzi, UNIFESP, USP, SUS-São Paulo, UNICAMP. Outros, com aprovação em áreas como pediatria, ginecologia, clinica médica são apontados também como sucesso, em escolas como a de Ribeirão Preto, IMIP em Recife, Salvador. Semanalmente vamos tomando conhecimento da aprovação da maioria em ambientes universitários ou de serviços vinculados ao SUS, do centro-sul ou do nordeste, geralmente em áreas de especialidades para atenção em saúde de complexidade terciária. Menos de 10% de cada turma opta pela entrada definitiva no trabalho médico assalariado em cidades do interior, adiando a especialização para alguns anos após alguma estabilidade financeira, poucos, jamais cumprirão programas de residência médica, más com chances elevadas de se tornarem prefeitos e ricos cedo.

Até aí nenhuma novidade. Nossos egressos sempre optaram em maioria pela especialização, e quando não conseguiam a aprovação nos centros de formação de excelência, no inicio, perseguiam o sonho em sucessivos testes até prosseguir e finalizar a ultra-especialização nestes centros.

Os primeiros lugares em centros de formação de excelência da turma mais recente de egressos revelam mais que a novidade e o espanto que alguns colegas docentes e discentes esboçam: filhos de médicos, oriundos de linhagens médicas de sucesso, ou de docentes universitários, portanto bem criados, com as oportunidades da educação privada, urbana, aprimorada em todas as etapas da vida, novidade e espanto seria não serem aprovados; a força do mercado de saúde de alta complexidade se impõe ao modelo de formação orientada para a atenção comunitária de complexidade primária e secundária, ainda que esta ofereça, no momento, oportunidades salariais razoáveis, más com estrutura e vínculo precários; a especialização prolongada em subespecializações, e para alguns mestrado e doutorado, os manterá distante não apenas de Alagoas e do Nordeste, más também da atenção comunitária.

Resta-nos o consolo de que estamos oferecendo uma boa educação médica, já revelada no índice máximo obtido no ENADE. Só! E não é pouco, nem muito. É nossa obrigação.

Enquanto isso, estudos sobre o desempenho dos egressos cotistas e daqueles não cotistas de origem menos privilegiada fazem-se necessários.

 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

MENSAGEM AOS FORMANDOS 2012.2

                 O cumprimento da jornada aconteceu com dedicação e compromisso não apenas com a própria formação, más também com compreensão e contribuição significativa de cada um para com o projeto de mudança e reorientação na formação médica iniciada em 2006. 
                As críticas e as atitudes ousadas foram importantes e necessárias, tanto quanto a recepção à proposta de educar para a comunidade. E creio que com vocês aprendemos que o ato de educar é realizado não somente em mão dupla, más de mãos dadas, com o carinho e o respeito próprio dos amigos, de quem confia e reconhece no outro a abertura para caminhar e crescer juntos.
                Presenciamos e apoiamos nos momentos necessários, como fazem os pais e educadores, o compromisso com o desenvolvimento político e cidadão, com iniciativas próprias de gestão democrática do centro acadêmico, a aproximação com o sindicato dos médicos, a conquista da Diretoria Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina, criação das primeiras ligas acadêmicas, a defesa do Hospital Universitário, o apoio à greve docente, e a defesa inconteste da proposta curricular que alicerça e fundamenta os caminhos da formação médica na UFAL.
              Estas características políticas os ajudarão no desafio permanente imposto pelas elites econômicas e seus representantes políticos de mascarar a dura realidade social com a agressão midiática à categoria e ao patrimônio público do qual o SUS é o mais visado por representar por um lado a memoria viva das lutas da reforma sanitária que são as mesmas da redemocratização e da elaboração da constituição de 1988, e por outro lado uma mina de ouro para o capital financeiro nacional e internacional.  Outros desafios são impostos como a tentativa de preencher vazios sanitários com quantitativo de médicos mal formados em escolas públicas e privadas criadas sem hospital escola, sem docentes qualificados, sem estrutura e qualificação suficiente da rede SUS, ou importados de escolas bolivianas sem a mínima qualificação para o exercício da medicina.
              Muitas lutas vos esperam más poucas turmas demonstraram o preparo político para enfrenta-las com maturidade como vocês têm demonstrado até agora.
               Boas notícias também vos aguardam, como o reconhecimento de novas áreas de atuação como a recém-criada toxicologia humana, a união cada vez mais forte da categoria e suas instituições, o retorno do CFM, Federação Nacional dos Médicos e AMB ao Conselho Nacional de Saúde, e o avanço nas câmaras do senado do projeto de lei que regulamenta o exercício da medicina no país.
              Assim é a vida, desafiadora, limitante, impulsionadora. Assim somos nós, frágeis diante dos desafios quando sozinhos, más invencíveis e imperturbáveis perante a necessidade de justiça, equidade, ética e garantia dos direitos humanos fundamentais, dentre os quais se incluem a saúde e uma formação adequada para garantir esse direito anterior.
             Esta deve ser a função da Universidade: traduzir os desafios da vida em cidadania, possibilitando o pleno desenvolvimento da ação política para a transformação social, para a ampliação dos direitos humanos fundamentais.
             Há frases que gostaríamos de ter sido os autores. Afirma o psicanalista Rollo May “Ser membro de uma comunidade é partilhar de seus mitos...” “Os mitos dão sentido a nossa existência e ... fortalecem os valores morais”.
             Cumprir os rituais educacionais confere sentido aos esforços empreendidos pelos pais, pelas instituições e pelos indivíduos em formação, com o significado da aceitação e permissão à participação como membro da sociedade, como adulto autônomo e como profissional de uma categoria.
             Voces fizeram o juramento invocando os mitos de Asclépio, Higéia e Panacéia, ativando uma memória universal e atemporal associada ao dom e a arte sensível de cuidar e curar.
             Quando Ulisses partiu para a guerra de Tróia confiou a educação guerreira de seu filho Telêmaco a Mentor, missão cumprida até o seu retorno. Nesta jornada fomos nós, docentes da FAMED, mais do que educadores, mentores, com a missão impossível de educar para a vida,  com a segurança do dever cumprido, com a certeza de termos feito o melhor possível, sem torná-los cópias inacabadas ou ciborgues de nossas competências individuais acumuladas.
            A nossa garantia é a de que possibilitamos o desenvolvimento de potencialidades para o sucesso pessoal e profissional indissociada da ação cidadã: médicos competentes, críticos, reflexivos, flexíveis, com capacidade para liderar e o agir comunicativo, conforme preconizam as diretrizes curriculares nacionais, e mais do que isso, singulares, ousados empáticos e amorosos.
           Agradecemos aos pais, e aos vossos valorosos e queridos filhos a escolha da FAMED, a confiança em nós nesta jornada real e mítica de desenvolvimento pessoal.
           Médicos da turma Professor Luis Ferreira de Sousa desejo-vos sucesso, saúde, força, e mares serenos para a travessia das novas etapas de suas vidas.

domingo, 21 de outubro de 2012

NÃO FAÇA DO SEU CURSO UMA ARMA

             
A saúde pública e gratuita é essencial e direito constitucional que devemos garantir. A educação e a segurança também, a moradia, e o mais essencial de todos os direitos: o de decidir, sem ameaças. Não podemos permitir outra vez, em nossa história, em nossas vidas, a ameaça e o impedimento à circulação das ideias, da reflexão crítica, do pensamento livre, e de nossos corpos, nos espaços coletivos das universidades. O que deve ser impedido é a subserviência e o autoritarismo na gestão dos espaços universitários, que se constituem como públicos e de livre circulação aos corpos e às ideias emancipadoras e defensoras dos direitos da população brasileira.
Escrevo aqui contra o fatalismo teatralizado daqueles que só enxergam o futuro diante das quantias vultosas e fáceis prometidas pelo governo e babam e pulam de alegria como cães adestrados, ou raposas diante do galinheiro, sem conseguir esboçar um único pensamento reflexivo de desconfiança, ou uma atitude coerente com o esperado para os representantes do saber e do poder acadêmico.
Escrevo aqui contra esse fatalismo e negativismo de obsessivos e depressivos que usam o poder e a ambição como droga, e necessitam drogar-se coletivamente com o dinheiro público. O capital agoniza, mas rejuvenesce sempre exaurindo dos cofres públicos o sangue que necessita. Quando o alvo passa a ser a saúde pública e a educação, é porque em sua agonia está lançando mão de suas ultimas forças. Portanto, é preciso negar este sangue. Saúde não é mercadoria, os Hospitais Universitários são públicos, são nossos. Quando a esperteza política administra o fatalismo dos cidadãos manipulados como consumidores e espectadores passivos; quando promete e mantém no poder os mesmos personagens, que se acreditam insubstituíveis; quando a Universidade deixa de ser o lugar da livre circulação das ideias e dos corpos, algo de errado e muito grave já está acontecendo e é preciso reagir e impedir o crescimento do monstro. Não podemos andar na contramão da história. Depois do HU, será a vez da Universidade, progressivamente sucateada, ser entregue aos abutres do capital. Portanto, é preciso dizer não agora à EBSERH e ao projeto de dominação do capital financeiro internacional pela precarização do trabalho. Medidas paliativas e transitórias não salvarão o SUS. O remédio que o SUS precisa é de cidadania e coragem para o enfrentamento dos representantes do liberalismo econômico travestido de populismo. O Brasil necessita de um projeto genuíno de nação soberana, com prioridade para a saúde e a educação. E a educação médica não pode ser desvinculada do hospital universitário, sob o risco de queda na qualidade. Não faça do seu curso uma arma, a vítima poderá ser você!

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Discurso de colação de grau- turma 2012.1

Caros formandos,
Em nome da casa de vocês, a FAMED, gostaria inicialmente de saudá-los com o reconhecimento do esforço e compromisso individual e coletivo para com o próprio futuro e o futuro da medicina. Desde o inicio, voces imprimiram a marca singular da postura crítica e da fala desafiadora, em momento inicial de mudança curricular, desafiando-nos ao compromisso da implantação de estágios, metodologias, estratégias, cenários, avaliações, com a qualidade proporcional à reforma  anunciada. Inúmeras foram as dificuldades, os desafios, os conflitos, entre vocês, entre nós, todos superados pelo tempo, pela maturidade, pela construção coletiva. Tenho certeza que hoje, com vocês, muitos docentes estarão autorizando-se em silencio a maturidade de alguma característica técnica ou humana do exercício docente desenvolvida em resposta ao desafio imposto por uma turma forte, que soube reivindicar direitos, exigir respeito, criticar equívocos, e no tempo necessário, reconhecer limites.
Ensinando a arte do cuidado, aprendemos com cada aluno e cada turma, a arte de ensinar com o rigor necessário à formação que corresponda às demandas sociais mais atuais para o adequado exercício da medicina e da docência. Cuidando uns aos outros, docentes e discentes, no processo de ensinar e aprender a cuidar, cultivamos juntos a transmissão de um saber tão antigo quanto a própria humanidade: o conhecimento prático de zelar pela vida, evitar o sofrimento prolongado ou desnecessário, e manter o respeito pelos limites que a nossa ignorância nos impõe diante da morte. Aprendemos com Paulo Freire que a educação é uma via de mão dupla e de entrecruzamentos possíveis e necessários em que educadores e aprendizes se educam mutuamente. A FAMED considera este preceito fundamental e fundante da reforma curricular proposta em 2006. Desde então estamos em processo contínuo de desenvolvimento curricular, propondo, ensaiando, pesquisando, reavaliando, pactuando, e construindo no cotidiano a formação médica que podemos, com os recursos técnicos, financeiros, e humanos, que dispomos, dentre os quais incluímos vocês, discentes, como vozes ativas, como parceiros, desta ousadia que ultrapassa os limites da relação tradicional docente-discente, e nos aproxima ao longo dos seis anos de convívio como adultos e amigos. Creio que estamos, com esta proposta inovadora, sedimentando o alicerce de uma sociedade mais fraterna, baseada em valores morais que dispensam a tutela absoluta, a passividade, a resposta pronta, a repetição, o medo da crítica e do novo. Diante do conhecimento que se renova aceleradamente, dos desafios da globalização, da percepção modificada do tempo, e dos limites do corpo, propomos uma formação que os eduque para a auto-aprendizagem permanente, para a dúvida compartilhada e solucionada no apoio mútuo, para a valorização do essencial, para o reconhecimento da possibilidade de criação de caminhos próprios, sem o individualismo exacerbado que a educação tradicional, tecnicista, ultraespecializada e precoce confere. Acreditamos com Theodor Adorno que “A enorme massa do saber quantificável e tecnicamente utilizável não passa de veneno se for privada da força libertadora da reflexão”, e com Heráclito que “nada existe em caráter permanente, a não ser a mudança”. Tentamos educa-los com estes princípios e cremos que a resposta expressa, por cada um de vocês, corresponde ao que todo educador anseia: médicos competentes, más sábios de que a competência é construída cotidianamente com as evidencias cientificas associadas à experiência que nenhuma diretriz ou protocolo é capaz de assegurar para a prática médica racional e humana; e médicos humanos, e sábios de que a competência humana também é construída cotidianamente no reconhecimento dos limites do trabalho multiprofissional, e na prática socialmente responsável. A observação de cada um de vocês, durante estes seis anos, nos assegura de que estamos trilhando o caminho certo para a formação médica com as competências técnicas e humanitárias necessárias para o exercício ético da profissão. Más, se muito do que falo for apenas a projeção de um ideal de aluno e médico, por um educador que ainda sonha e luta por seu ideal, de uma formação emancipadora e socialmente responsável, que estas palavras soem como um último ensinamento, uma última reflexão com a força libertadora de que fala Adorno, e que com a emoção deste momento os faça lembrar sempre de que o que nos move como educador médico é um amor incondicional pelas artes de cuidar e educar adultos para esta imprescindível, e bela profissão, a medicina, que a partir de agora se confunde com suas próprias vidas.
No entanto, gostaria de admitir uma falha na formação e fazer uma crítica às diretrizes curriculares do MEC para os cursos de medicina, que  propõem o desenvolvimento de lideranças para o trabalho em equipe, más não propõem o associativismo sindical como campo de estágio para o desenvolvimento desta competência. Nenhuma profissão por mais bela e representativa, socialmente, se sustenta com a dignidade necessária sem o trabalho associativo, em que a defesa política dos direitos da categoria está vinculada intimamente à defesa dos direitos da população aos produtos da ação técnica da categoria, em nosso caso o direito ao acesso universal a uma saúde de qualidade. Atualmente, assistimos com perplexidade o descaso do governo federal para com estes direitos da categoria medica, e de acesso à saúde de qualidade, com iniciativas equivocadas de superação destas dificuldades por meio de portarias e decretos que disfarçam muito mal o repasse dos hospitais universitários para o setor privado, e preparam a futura precarização do trabalho médico com a abertura indiscriminada de vagas e escolas médicas sem a consideração do rigor dos critérios técnicos propostos pelos órgãos representativos da categoria, e com a imposição da ausência de revalidação de diplomas médicos estrangeiros.  Todas estas políticas sendo orquestradas por um governo que se recusa a dialogar com os funcionários públicos das universidades em período de greve que já se estende por dois meses, e a conceder os dez por cento do PIB necessários para a reorganização e ampliação do SUS e para a oferta de salários e condições de trabalho digno para todos os profissionais da saúde. O próximo passo, em seguida ao reconhecimento do excesso de médicos e da formação insuficiente e inadequada será a proposição do exame de ordem, o que frustrará ou no mínimo adiará o sonho de muitos após seis longos anos de árduos estudos.



Estes desafios os aguardam como uma realidade muito próxima, e que o associativismo forte poderá, ao menos minimizar os estragos para a categoria. Usem esta marca singular deste grupo, a crítica e a ousadia, de maneira positiva, para nos órgãos representativos de classe, defender os direitos da categoria e da sociedade por uma formação e por uma saúde com qualidade.
Por fim, chega a hora da despedida, dos colegas, das famílias, e de nós docentes. Ainda nos encontraremos muito no facebook, más aguardamos que retornem após os cursos de especialização para o convívio real, nesse cantinho charmoso do mundo chamado Alagoas, sabendo que na FAMED haverá sempre o espaço de vocês.  Mikaele, Beto e Lara, representantes de outros estados e que retornam para seus cantinhos familiares, deixarão muita saudade. Alex, os Brunos, Caio, as Marianas, Yves, as Clarissas, e demais colegas, meu respeito e reconhecimento pela vitória alcançada.
 A vida é imprevisível, más no que tem de previsível aponta para o sucesso, desde que este seja o desejo e o sonho de cada um. Este é o meu desejo, que vocês tenham muito sucesso.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

AS DORES DA MUDANÇA

AS DORES DA MUDANÇA

Há duas semanas consecutivas em trabalho conjunto, com os componentes do NDE, do colegiado, e com mais alguns docentes convidados, todos do curso de medicina, na segunda oficina fui surpreendido com a resistência às minhas sugestões de modificações do PPC. Ao apresentar a sugestão de mudança de um dos princípios norteadores da reforma curricular iniciada há seis anos, de ênfase nas necessidades de saúde da população, que considero fortemente vinculada à concepção epidemiológica de saúde/doença, para a problematização das necessidades de saúde, quis enfatizar uma outra concepção ética e política de saúde/doença resultante de prioridades definidas a partir da posição de classe e visão de sociedade. Os desdobramentos teórico-práticos de concepção e execução de um PPC serão naturalmente diferentes. Talvez eu não tenha deixado clara esta diferença, talvez esteja subestimando a capacidade politica de compreensão imediata de alguns colegas sobre as consequências politicas, as estratégias, técnicas de ensino, cenários, atitudes, formas de avaliação, ainda que as diferenças na compreensão plena dos conceitos em educação em saúde seja uma realidade neste grupo. A segunda sugestão, de incluir a avaliação pelo usuário e comunidade no rol de instrumentos para a auto-avaliação institucional despertou novamente oposição, desta vez aliando aspectos de resistência politica a desconhecimento técnico sobre a avaliação em 360 graus. Neste momento, o feedback dos resultados das avaliações, ponto incômodo em outros momentos, até foi esquecido ou aceito consensualmente, devido à necessidade de se contestar a ousadia de se incluir o usuário dos serviços de saúde-cenários de aprendizagem, como críticos de nossos atos educacionais formativos. Com o título de “Acertando o passo”, a oficina foi sugerida, com ironia, mudar para “Acertando com o Passos”, em alusão ao meu sobrenome. Posta desta forma a questão se desdobra em três possibilidades: uma de que eu esteja impositivo, ou no mínimo acelerado e mais adiante dos demais, exigindo que uma fórmula minha concebida como verdade, sem a devida reflexão, e num tempo breve, seja logo aceita por todos; outra, a dificuldade e resistência de colegas em função de posições ideológicas que permitem outras construções curriculares para a formação médica; por ultimo, nossos fantasmas podem estar perturbando nossos afetos, com negações e projeções que de um lado negam a minha posição de liderança, e do meu lado, perturbam-me com a busca de reconhecimento deste mesmo lugar. Reconheço a minha ansiedade por uma mudança curricular mais integradora e menos tensa. Admito a necessidade, legítima, de imprimir uma marca no atual período da gestão, e ser reconhecido como líder capaz de uma condução de um processo de desenvolvimento curricular mais avançado que o atual. Também é real que os sentimentos projetados apontam as dificuldades e diferenças a cada um em lidar com a autoridade, a figura internalizada do pai. A medicina como representante hegemônico do poder cientifico no modelo hospitalocêntrico tem formado indivíduos para ocupar o lugar do pai severo, distante e pouco relacional. E de modo especular todas as demais profissões reproduzem-se do mesmo modo, pois a matriz é anterior e maior que a medicina, o modelo científico. Este lugar, tradicional, não posso ocupar, reproduzir ou legitimar. Negando-me a corresponder a este papel, anulo as minhas preocupações anteriores de estar sendo impositivo. Agradeço então aos colegas pelo feedback relacional para corrigir-me a tempo.
A compreensão pessoal da necessidade de um PPC ético e politicamente orientado para a responsabilidade social do egresso associado ao desenvolvimento de autonomia das comunidades-cenários da aprendizagem, não mudará. Neste momento, no grupo de docentes, a regra não é vencer, ou impor, é propiciar reflexões e despertar a cidadania. Não há na ação docente, em qualquer momento ou modalidade, distanciamento da política. Nossos atos docentes reproduzem uma concepção curricular alinhada com o PPC que por sua vez está orientado por uma concepção politica de sociedade. Se o ordenamento curricular é o esqueleto do curso, o PPC é a alma do curso, e mais que isso, é o livro sagrado ao qual devemos com certa frequência  recorrer para guiar nossas ações mais imediatas, e a médio prazo submete-lo a revisões, pois já não lidamos com dogmas e sim com sociedades vivas e distintas, que demandam respostas especificas que levem em conta os avanços científicos e tecnológicos e a cultura no seu sentido mais amplo.